"Dotô, tô cum pobrema"
A ordem do destempero

Ela era preta, preta, preta e pomposa. Batom roxo-borrado no canto da boca, e suada. Veio em minha direção, e se adentrando à porta do escritório, lembrou-me muito as babás de fim do Império. -- Muito cômodo, e salva a nossa pele, começar uma crônica com a inserção de um juízo de valor a um sujeito previamente excêntrico ou uma situação previamente não calculada. E a garotada verve de nossos dias, a cada vez mais com pressa de mostrar-se letrada, estrangula esse mecanismo por um motivo: destempero. O excesso é a mancha escura nesse lençol; então o menino de 11 anos começa a escrever a   ortodoxa redação intitulada Minhas férias na fazenda da vovó: " Tinha um cocô verde, grande, no meio da sala de jantar..", e arg! já gastou a espoleta no primeiro tiro. Isto chama-se Virada do Pote, designo assim. Virou-se o pote de pimenta e a tampa caiu na primeira sacudida. O clímax, inserido pelo cocô verde, fedeu antes da hora. -- Sentou-se na cadeira, levantou pra tirar o maço de picados do bolso, sentou-se novamente. Olhar assombroso o dela, ao me dizer, "dotô, tô com um pobrema." Eu pensei baixinho; em despojo; ela está com dois, na verdade. E com musicalidade. Eu e ela, alí, um em frente ao outro, nos encontramos nesta vida, pois na morte jamais iria acontecer tal escrúpulo. -- Escrúpulo. Outro modo sempiterno de se acabar com um texto de modo desesperador, é a força descontrolada ao descrever tais institutos mundanos, pecando na exatidão do objeto a que se refere, fazendo assim, um julgo que não se adapta à estética do sujeito menciondo, por inadequação. E fazemos dioturnamente isto por falta de afinidade com a palavra, ou apenas pretensão de usar determinada expressão. Então o rapazinho de 11 anos, que escreve a redação Minhas férias na fazenda da vovó, insere no texto a nova palavra que aprendeu em uma conversa dos tios: "Lasciva". E sem pudor a usa: "Aquela vaca comia o pasto com Lascividade." O nome disso é floreamento. Isto não é colocar o carro nas frente dos bois, não é sobre o tempo que estamos falando; isto é colocar os bois encima do carro e sair empurrando! É muita luxúria pra uma vaca só, a qual apenas come capim. Mas a vontade de usar a palavra vem a tona na cabeça do garoto. Ele quer mostrar pro mundo - ou só para a nova professora - que tem conhecimento de tal jargão galês. Continuemos. -- Não fazíamos mau algum, um ao outro. Concomitantemente, parados, observando cada qual com seus carregues existenciais. Reticente que sou, teimosa que é ela, chegou em findar numa solução: " - Então é benefício assistencial, né dotô?". Como era interessante ver a pobreza em pessoa, em estrutura, em roupa, em lamúria e odor. Tirou os documentos do pequeno alforge que laçava a cintura, tipo de caçador, bravura em pessoa; olho atento, mão grossa a puchar a identidade amassada; e a torneira dos valores que não parava de pingar em mim, dizendo: pra indigente desse mundo frio, o pelego é o maior documento. -- O jovem alfabetizado, ainda anônimo no mundo das palavras, gosta de experimentar coisas novas. Gosta de tentar inovar, ancorado nos ombros de grande nomes. O bambino apaixonado lê Drummond esporadicamente, e esquece as paixões, ao se apaixonar por Drummond. Lá vai o mocinho escrever poema - e há um caminho até ser poesia. Como está estudando a estética do poema - o garoto apaixonou de verdade -, solta-se a caminho do saber literário. Em poucos dias, já define Conceptismo, Cultismo, Encadeação, além de todas as escolas. Em nota, fica craque em separar sílabas poéticas: " A/mor é/ fo/ go/ que ar/ de/ sem/ se/ ver", e aos poucos está inventando grupo silábico, como o exemplo em anexo. Daqui a pouco aplicará gongorismo na prosa - pra raiva de Luíz de Gongora -, vomitando neologismos, metáforas de requinte, trocadilhos epifânicos, e usando na redação jornalística argumentativa, os seus saberes, ao falar do nosso presidente: " Lula, ao defenestrar toda prole labutária, e postergar dilentantemente, o ócio silente de todo mandantário para próxima era administrativa, traz gozo salutar ao cume do freneticismo político. Assim não dá!" Exato, assim não dá pra professora,( mal remunerada, acometida do mal do século - estresse -, virgem de olho e com todo peso social que o desmericemento da educação lhe inferiu) entender aquilo que o aprendiz de Quintino Bocaiuva tem a dizer. A mocinha lê Clarice Lispector. No primeiro parágrafo de Hora da Estrela, já ama Clarisse; não obstante, no parágrafo seguinte, quer ser a Clarice: "Eu amo Clarice! - diz ela pra si. E já ensaia seu primeiros parágrafos intimistas; quer ser intimista; "quero falar do que vem de dentro"; quer levantar e astear a bandeira do intimismo; Agora quer ser feminista, apesar de não saber de onde nasceu e a finalidade para tal. E pronto, está feito outra desgraça na cabeça do pré-adolescente moderno, ao trazer para sua consciência, na âmago do saber, o seguinte ideal para si: 'Intimismo é falar de si'. Portanto, já tira as primeiras obras em parágrafos eloquentes, de título bastante famoso em vários cantos de cadernos do 1º ano ginasial, por exemplo: ' não caibo no mundo. Sou só, assim como o mundo é.' Alguns ainda mais petulantes , sem compromisso exalam na porta do guarda-roupa: ' vou casar com o mundo, de véu grinalda e coração sangrado .' E ainda sabe também fazer o mecanicismo da escrita dos fluxos de consciência: "Andava pelo passeio; não, agora corria; corria mas queria parar, pra ver, pra morrer, pra chorar; e não aguentava mais o cansaço das minhas pernas; tão paradas antigamente na minha preguiça exaustiva"... e ainda coloca conceptismo avançado .. " e correndo, plof plof plof plof plof, tcha bum!; caio na água do meu prazer." O pragmatismo é o sobrenome feio do adolescente escritor, morando na esfera intimista que ele inventou. -- Ela levanta da cadeira, após colocar os papéis sujos na bolsinha, mas antes, pede água: "me arranje um copo dágua, dotô." O copo se levanta e deixa dois pingos testarem a gravidade; dois espelhos; caindo juntos com o suor daquele indivíduo. Gluc, Gluc, Gluc, e pela porta sai. Fico eu, meu quadros , meus livros, e minha gramática. Sem solução para o quadro dela, que era puro intimismo.

Marcos Carneiro




























































Dezessete
Dezessete primaveras cálidas,
um singular severo verão de calor:
o que separou esta alma pendente,
com anseios da mão célere, experiente,
do meu mais cérceo morno torpor.

Menina mimada, como o mundo, à cidade andando;
Seguindo o seu norte, no Austral caminhou.
No oeste dormiu noitadas sob a floração,
no Leste, viu que dos bairros, o mais feliz,
é onde se enterra como arbusto a solidão.

Vestindo de Vênus, a sua indumentária,
puxando as rédeas da luz do velho Apolo,
abraçou, em mordaz movimento, Afrodite,
deitando como folha no grego solo,
caindo como criança no meu erradio colo.

Arguiu em palcos, almas diversas,
protagonista dessa imensa e verduga peça,
e ensaio não permitiu, onerosa que é esta.
Dançou dança comigo, fez em palco, tango, seresta
das praças, das ruas, em seu leito macio fez festa.


........................................................................


























Em duas cores

Sintilância da pele clara,
a contrastar com o negro do mundo.
Voz que emana do mormaço do fundo,
a soltar luz no ruído que dele, exala.

Da garganta, lânguido corredor,
se faz hóspede a palavra lodosa,
como o alimento que serve a dor,
ao alimentar a lâmina formosa.

E vênus pela janela, cinema em duas cores,
das quais uma lembra os amores,
na gaveta escura da tenra imensidão.

Lembranças do deitar na divina prancha,
onde os delgados braços desmancha,
márcara dos seios, ao tentar ver coração.
]
.....................................................................................




















Poesia itinerante

Cada dia uma missão,
cada passo, passa o solado,
a brigar como soldado,
em guerra contra o chão.

E cada passo como fóssil
para o leitor do futuro,
como um cancro duro,
não ama, mas se faz dócil.

Mas se tem como eficaz,
o papel duplo no alvo nariz,
que ao assuar a poesia, o faz
respirar poesia de aprendiz.

Cada esquina uma palavra,
como acne - célula morta,
que em folha branca se exorta
com recorte,
en/ca/dea/mento,
di vi são.

Cada parágrafo uma paralela,
cada placa - uma vírgula -, nela.
Idas e voltas na estrada,
pra pegar a sintaxe, ops!furada.
Agora no acostamento.


.........................................................

Ocorreu um erro neste gadget