Dor
Escorrendo de trincheiras das infindas guerras;
está na língua do miserável - no teu raro flavor.
No urticante itinerário em busca de imensas glebas,
de povos que semeam - amargo sol! -
o mesmo ardor.

Em becos - vazios! - de penumbras cidades;
no olho apreensivo da moça, ao nestes, passar.
No leito de morte, no ir sem explicar;
no pueril desencontro de diferentes idades.

No olhar torpe do infiel depositário;
no consenso eclesiástico do fiel celibatário.
No desarranjo de passos, em um plano fugaz;
no jazigo de jovens mártires, que aqui, jaz.

No altivez militar, ao espelhar a indumentária;
no fim suicida, daquele que jogou-se de uma vez.
No parto enquadrado de filhos de presidiária;
na trêmula fuga do malandro ao furtar o galês.

Nas varandas, nas cortinas, nas janelas;
nos rumores de praças cheias de diálogo.
Na guarita onde repousa os dormentes sentinelas;
nos cálculos meticulosos ao consertar o malogro.

Das infindas atmosferas, onde mora a abstração.
De todas as matérias, ela veio morar em mim;
em murmúrios da sinapse, eu reduzo o universo,
e a dor dos desgraçados, sobreponho, neste verso:
dor de poeta, é sabê-la não ter fim.



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Grandeza Física Livresca

Houve um tempo em nossa juventude - não tão remota para que nossa sinapse não possa tocar com veemência -, na qual começaria a se formar aquilo que se chamaria de nós; nós no presente, no infinitivo caso fosse um verbo. A nossa ontogênese começaria por alí. Época das descobertas corporais. Da criação das primícias morais, religiosas, e de infindas coerções paternais. Época de começar a fazer e sentir-se em suas comunidades, cada qual segundo a suas escolhas ou escolhas dos tutores. Chamamos o advento de infância. Tirando uma pequena parte de acometidos de Idioitia, ébrios habituais, pródigos da vida e beberrões de esquina, loucos em vertigem e afins, vivemos nossa infância no tempo certo. Justamente no tempo em que o Tempo nos favoreceu a tal vivência com convenções de seu tipo: escorrer catarro do nariz o dia inteiro; brincar na rua, na casa, no telhado, no consultório (ops!), até voltar pra casa no fim de tarde com apenas um par do calçado, e corpo barrento até o pescoço.(Não se sabe onde arranja tanta terra). Foi também nesse intervalo cronológico que a flecha padronizada do acaso me fez viver o meu imaginário das medidas, distâncias e intensidades. Todas elas com a pitada do fantástico, inserido pelo baixo inconsciente já guardado e a quantidade de perguntas ainda sem respostas. É nesse mundo de medidas e grandezas que eu me encobria de valorar certas coisas, objetos cuja funcionalidade ainda se via obscura na epiderme verde de minha experiência. Estavam lá, ostentados quase sempre em cima da estante ou em tábuas que apregoavam-se em barras de ferro, ou sendo levados por homens de óculos passando pela rua, e até em meio às lúdicas bibliotecas que eu não entrava: estavam os protagonistas desse conto: os livros. Livro naquela época, pra mim, era um objeto de disparidades entre os seus: haviam os pobres, os ricos, os medianos, os obscuros, os intocáveis, assim como outras descrições. Não fazia o favor a ele nem de abrir a segunda página - a primeira eu abria sempre -, mas livro que se preze tinha de ter as descrições preliminares de um peru de Natal; ser fornido, robusto, limpo, cor forte, sustante, o qual se encaixava bem na mão. Livrinho manhoso, fininho, de crônicas regionalistas ia pra lixeira. Manuais de auto-ajuda eram para ajudar a fazer peso, caso o vento tentasse levantar o jornal de quem estivesse lendo. Enciclopédia não; era pomposa. O seu galicismo estava na grossura da capa, no acabamento do título que dizia: 'Enciclopédia Larousse', em letras douradas. Aquilo era enfeite de sala imperial. Pra mim que não, eu pensava; até folheava. Poderia ficar horas lendo aquele tanto de palavras descritas com contextualização ímpar, sem nenhuma relação entre si. Enquanto lia sobre 'Paris' numa folha, o olho já esticava, se apressando para chegar logo em 'Plutão'. De vez em quando cansava e folheava pra frente e desistia; era muito o que saber, e acreditava piamente, que se alguém decorasse tudo aquilo, se daria bem no programa de perguntas da televisão. Dicionário, pra minha veleidade na hora do saber, era artefato de fogueira. E no meu Index constavam outros sujeitos de se folhear, todos levavam uma aura de incômodo salutar para o creado mudo. Exemplo era o livro de receitas, coisa quase descartável na minha concepção, apesar do cheiro ser sempre bom na cozinha. Revistas eram ajudantes de tarefa de Educação Artística: recorte e cola era uma farra, uma sujeirada. Enfim, tantos outros que faziam parte da lista de encostos de seringueira: alguns códigos de leis escondidos, Constituição encima destes; algumas listas telefônicas, lista de sinopses anuais, bíblia sagrada. Opa! Esta não. Me deparei com a Bíblia também, na minha infância de menino sonhador. Essa era a complicada. Pra mim, uma velha coroca se fazia em sua imagem. Indescritível, sem conceito, como um pedaço de Marte. Pra mim era morno, mas sombreada de obscurantismo. Peça de museu. Não sem motivos. Dela, pouco se lia, e muito se ouvia falar. Era carregada na mão de homens engravatados, mulheres silenciosas de saia até o calcanhar; que andavam como se fossem lutar. Sustentava um caráter dissimulado, austero, com capa de zíper; às vezes de pano; antissocial demais pra mim, e o medo de que um dia saisse alguém lá de dentro é verossímel: na igreja dizia o pastor, que 'na bíblia está morando aquele que salva.' A fulana não tinha autor ou autora; eu ficava horas procurando e pensava até que tinha desgastado a pintura do nome. Cheguei a suspeitar que o homem que sairia lá de dentro, e que iria salvar-nos, era o autor. Até que certa vez, minha avó em sua paciência e calma peculiares, me conformou: "Larga de ser besta, mininu! A bíblia quem escrevou foi o 12 apóstolos!". Eu só balancei a cabeça, pensando alto após a explicação da senhora: pra que doze autores? O tempo então, passou. Levou-me pelas mãos, me tirando gradativamente as indagações de Realismo Fantástico; a ingenuidade descolava-me como um fardo pesado, até que outras indagações se poriam em minhas costas. Me vi aos 14 anos de idade percebendo que o peso das coisas só é válido, só é preponderante para o qual seu uso enseja. Livro então, agora, não era mais artefato físico, em sua integridade total. O livro era permeado de alguns outros personagens que se faziam interessantes, tal quais as palavras e os significados. Comecei a lê-los, incessantemente; buscava sentidos, respostas; consultava dicionários que até então eram incômodos. Pouco a pouco fui plantando um jargão que outrora não era possuido, e tudo foi correndo normalmente: eu, os livros e vazio. Vazio?! Sim, vazio. Comecei a entender que minha leitura não dava em nada. Esquecia quando lia; pulava páginas várias. Não acabava de ler completamente. Enfim, lia para passar o tempo - eu queria passar o tempo era fazendo meninisse -, esvair do fim de noite; ou pra dizer apenas a mim mesmo que lia livros. Frágil era essa situação, minha leitura não se baseava em laços fortes, tendo consigo apenas o pretexto do consumo temporal. Logo, logo estaria de volta ao entretenimento adolescente moderno: diversão eletrônica, meninas da minha idade; jogos de consquista e uso de entorpecentes legais. Os livros, mais uma vez, se encaixaram na prateleira.
A fada madrinha foi minha irmã, naquela época vestibulanda das ciências humanas. Não sei se gostava de ler para passar tempo ou para adquirir conhecimento. Mas foi ela. Foi ela que certo dia, em uma conversa diária comigo em seu quarto, entre bagunça cômoda da prateleira, me entregou um grande livro de capa azul. Laterais amarelas, meio baunilha. Pegou aquele livro e me entregou. Se intitulava "O Mundo de Sofia", de Josten Gaarder. Eu, virei a cara na hora. Ler me dava repulsa. Mas após olhar meticulosamente a capa, me fiz diplomaticamente abrir as primeiras folhas. Continha uma grande história fictícia, com personagens céleres, diálogos frenéticos. Havia nele um mistério em sua história, presságios mirabolantes, misturados ás teorias filosóficas múltiplas, narradas em mais ou menos 400 páginas. Em duas semanas e alguns dias, eu chegaria ler a última página com o olhar apático. Queria começar a ler novamente, pois alí, naquele pedaço de papel cultural proveniente de lapidações de uma árvore, e cujas dimensões não tive nem o sacrilégio de pensar, estava o estopim de um grande e ascíduo leitor.

Marcos Carneiro
Obs: Este texto não é publicidade para J. Gaarder. Só parece.

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