Ele, o boteco

As massas humanas crescem, as avenidas enlargecem. Estas também se comprimem, cada vez mais estreitas dentro do limite de novos automóveis. Os prédios se esticam para acompanhar o impulso populacional acelerado. O metrô é cogitado, e um shopping novo está por vir. Ipad 4 está na mão da guria de 13 anos que houve música pop enquanto vê a modernidade passar sem saber o que está acontecendo de fato. Tudo está célere, tudo se afina, tudo é high tech. Enquanto a celeridade explode na bolha das novas invenções, ele está ali, em qualquer esquina de rua coletora; em qualquer ladeira de acidente geológico. Quem? O guarda de trânsito? Obviamente não, pois estou falando do Boteco.
           
É curioso o boteco não ter um capítulo nos livros escolares de História fundamental. O Brasil sem o Boteco talvez seja um escocês sem o saiote xadrez. É um piloto de rally sem um GPS, ou o Justin Bieber sem a franja. É, esta última foi bem mais convincente. Freud, se tivesse viajado ao Brasil enquanto vomitava novos conceitos como o Inconsciente e a libido, teria se embasbacado com a riqueza de situações dentro de um desses rudimentares estabelecimentos.
           
Paralelo a existência dessa presente peça em nossas vidas, o boteco é um conceito tão usado (não só a palavra como o próprio local) em nosso cotidiano, que ele não escusa uma semiologia própria. Se brincar, deve ter nego já pensando na Ciência do Boteco, que por minha indicação se chamaria Bacologia. O boteco entra no âmbito da linguagem com jargão próprio e semântica esparsa, só para exemplificar sua força: ele tem infindos sinônimos, geralmente postos pela variante do local e pelo uso que se faz.
           
Entre os mais importantes, para topicalizar alguns relevantes, está o Boteco Tradicinal. Este é o seguinte: se você chega no recinto e se depara com uma mesa promocional de alguma das cervejas da logomarca Ambev; se uma senhora de meia idade vem lhe atender com um avental xadrez vermelho e se houver uma placa acima do balcão escrito “Temos tira gosto” com hífen, pode disconfiar-se de ser um Tradicional. Aliás, pode ter a certeza se a moça de meia idade lhe trouxer um copo de 200 ml daqueles da marca Nadir, cujo designe tenta até imitar uma das pilastras da Acrópole grega.
            Diferenciando-se estética e geopoliticamente do primeiro, a boteco que leva a palavra Bar já se considera algo “mais aceitável” socialmente. Uma unidade de fiscalização da Vigilância Sanitária pensaria duas vezes antes de entrar em algo que se chama Bar. Desse modo, os fiscais param mais nele para beber do que pra fiscalizar. Talvez por conhecerem o esperto dispositivo anti-fiscalização, os Botecos remodelam seus nomes, dão uma boa guaribada na fachada do estabelecimento, colocam a cópia da Ivete Sangalo feita de papelão na porta, e se intitulam um Bar. Daí vem os excêntricos nomes que nos deparamos por aí. Bar do Preto, Bar do Barba, BarBicha, BARata, Bar Alho, Bar Tistuta, Bar Merindos, Mastur Bar, etc.

Outros nomes como Quiosque, quando é na praia, também são lembráveis porém efêmeros. A não ser que você more em uma cidade litorânea, ver um boteco Quiosque é complicado. Motobares são aquele cuja singularidade permeia a vida de motoqueiros metaleiros. Esses botecos, que até poltronas de ônibus estão instaladas, tem a cara dos vestiários de show do Black Sabbath. Mas falar de exceções é oneroso da parte de um articulista, pois o assunto fica centralizado em demasia. Voltemos para um clássico!
           
Quando é fechado, escuro, com alguns faroletes publicitários piscando propagandas de cigarros e cervejas dos Países Baixos, é chamado de Pub. O nome é baseado nos tipos clássicos de Moscow, Londres, Amsterdã, Praga, onde o frio lá fora deve ser barrado.Reza a lenda, que grandes acontecimentos da história contemporânea ocidental perpassaram dentro de um Pub. Lênin teria deflagrado a Revolução Bolchevique avisando seus homens por um guardanapo na mesa do boteco russo em 1917. Até Adolf Hitler, que era contra o consumo de álcool, teria se aventurado nas noitadas “pubianas” (!). O difícil, precinto, era distinguir o som do “Heil!” alemão do som de um soluço.
           
Se fossemos citar todos, teríamos de publicar um Enciclopédia do Boteco, cujo subtítulo seria “pague antes de beber”. Não tendo este espaço dentro da web, terei de citar apenas clássicos, os quais não podem passar despercebidos do modo em que passamos retilíneos de suas fachadas em enes endereços. Não deixamos então passar em branco falar das exuberantes, xexelentas, excêntricas, discriminadas, mal-amadas, deturpadas Biroscas. Não poderia esquece-las, claro. A Birosca esteve presente, e ainda está, nas vidas de quem vive em condados interioranos.
           
Ninguém sabe ao certo a etimologia da palavra, que o carioca pode falar com tanta indiscrição ao colocar um x no lugar do s. Porém, de uma coisa é certa: a Birosca é a prima pobre do Armazém. Daqueles que tinham de tudo para comprar, até ferradura de alazão. A diferença entre uma Birosca e um Armazém é que cachaça no segundo é produto secundário, enquanto no primeiro é quem sustenta a casa. Apenas uma porta. Aliás, se a porta for ao lado do portão da casa do dono fica melhor a descrição. Mesa é artigo de luxo: não se coloca mesa onde as pessoas apenas passam. É o caminhoneiro que estaciona para tomar uma pinga, o gari que foge ao olho do chefe para aquecer o serviço.
O esportista que se cansa da cúper e se instala ali para o descanso, é o policial que passa para pegar o arreio. Outras características estruturais da Birosca: o tira-gosto nunca é feito na cozinha, até porque isto não há no recinto. Comida vem em saquinhos industrializados. É onde mais se encontra a “pururuca”; pedaços de gordura bruta, fritas de um modo que endurecem para a luta contra os dentes. Não existe nada mais calórico. Parece feito para barrar o efeito do álcool nos poros.

Talvez em um futuro remoto, alguém se exaspere em dizer que o boteco pode acabar. Eu digo que não. Ele não acaba, e sim, muda de forma. Boteco é um advento que responde aos anseios humanos mais intrínsecos de solidão, de espasmos da comunicação e sociabilidade. Não existe lugar mais cômodo para se fazer amigos (ou inimigos) do que um boteco, pois é lá onde toda capa social se destrói. Onde a retina estoura as muralhas fortes do silêncio da comodidade. Como dizia o poeta, e será novamente imortalizado nesse artigo: “Quando o trem aperta em casa, o pau quebra na rua.” O pau quebra é no boteco.


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