você me jura
e eu te juros





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é só pó
no vento

áspero fim



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não há palavra que sustente
o peso dessa vírgula






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sou quase tudo -
o que resta
é o universo






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amor -
estrela que não há
mesmo distante brilhando




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Sou do tamanho
da minha falta




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Antes um instante
a uma estante



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Vida, esse eterno sumiço




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ambientou-se no quarto
o criado mudo, ela também (ponto)
Sentada, ouvindo Leonard Cohen
a cadeira quente 
a vitrola, morna
ela, fria (ponto) 


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não existe ninguém
mais fresco que
aquele
queijo




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minha saudade
tem nome
de gente





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Lavando roupa

são os lugares que passei
com cada uma delas;
tiro dessa calça as pregas
que tu rasgava sem lei

a camisa vermelha, molhada
de suor fora inundada:
nossa pele marcada a mão
outrora fora o único sabão

devolva aquela meia
que o outro par você
levou

Nosso amor é essa
roupa seca que você
centrifugou


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Eu queria segredo quanto ao nosso amor.
Mas quem me vê na rua sabe. 
O cara de baixa estatura na esquina sabe. O guarda do colégio ali pertinho sabe. A vizinha varrendo a garagem sabe e o varredor da rua também. A moça que entrega o pão sabe. O motorista do ônibus, me olha só uma vez, mas sabe. O porteiro da faculdade sabe, assim como a vendedora de água de côco também sabe. Seis professores sabem, dois monitores também. A rapaz que recarrega carteirinha sabe e, enquanto eu passeio pela grama até minha casa, estão sabendo. Meu chefe sabe, e o entrevistador de emprego também. Talvez a grama saiba, de tanto meu pé choraminga-la. Mil e quinhentos e sessenta e dois amigos de facebook sabem. Dois grandes amigos - um deles morto - também sabem. Nos shows, as mãos levantadas ante a iluminação branca, sabem. Os grafites sabem. Os rebocos, entrecortando árvores semi-tortuosas, muito bem sabem. A lua sabe tanto, que se esconde alguns dias para eu não reclamá-la. Céus azuis sabem, a poeira nos móveis esconde, mas sabe. Sabem cada uma das estrelas que aponto quando quero te procurar, em meio a clarões que piscam - olhares silenciosos incomunicáveis. As músicas de variados estilos e timbres sabem, e me lembram. A varanda suja sabe, o jardim descuidado sabe. O colchão no corredor sabe. A lata de pêssego jogada no rio sabe e sente-se triste por ser levada pela correnteza desconhecida. 





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o avesso de mim é um universo
onde cintilam dores pulsantes
lodosas e atenuantes
da amálgama rotina de viver 





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Tenho nos olhos o peso de lembranças,
o reflexo rebuscado do chão,
os trapiches cortados em derrotas
e muita pedra
em cada mão.

Tenho nos olhos paisagens,
a figura de um corpo anônimo,
bocas de sorrisos gratuitos,
muito buraco no fígado
e pouco coração.



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Vamos fazer baderna no elipse,
botar fogo no circo
e alagar o cabaré.
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