Muito mais isto do que isso.

Sou assim, daquele jeito.
Muito menos do que mais.
Mais acento do que caminho. Mais agudo que tônico.
Mais sorriso que envergadura. Mais branco que amarelo.
Mais presença que porta-retrato. Menos foto do que biografia.
Muito mais voz que silêncio. Mais zunido do que gemido.
Mais tiro do que queda. Mais chão do que cimento.
Mais porta que janela. Mais natureza que desnaturado.
Mais motivo do que desculpa. Mais choro do que lamúria.
Mais em prosa do que em verso.
Apesar de mais objetivo do que vírgula.
Sou mais árvore do que parede. Mais foto do que síntese.
Menos dicionário que enciclopédia.
Sou mais pele do que mucosa. Apesar de mais nariz.
Mais feio que bonito. Só que mais amigo do que cliente.
Sou mais livro do que lembrete. Mais romântico do que sei.
Mais áspero do que liso. Mais reticências do que ponto...
Ainda mais magro do que o normal.
Apesar de mais peso do que altura.
Muito mais mão do que pé. Apesar de mais chulé que piolho.
Sou mais viver do que velório. Mais chorinho do que marchinha.
Sou mais bolso do que carteira. Mais chave do que cadeado.
Mais ritmo do que passada. Mas cadeira que salão.
Ainda menos amor do que paixão.
Mais telefonema do que carta. Mais sujeito que objeto.
Muito mais em terceira pessoa do que primeira.
Muito menos pessoa do que alguns.
Sou mais folhetim do que classificados.
Apesar de mais propaganda do que o fofoca.
Mais animal do que pedra. Mais árvore do que parede.
Muito mais madrugada do que ensolação.
Apesar de ser mais lagarto do que morcego.
Sou muito mais saudade do que velhice.
Mais olhar do que flerte. Mais explicação do que cantada.
Mais casa do que casado. Mais varanda do que garagem.
Apesar de mais motorista do que passageiro.
Mais extrangeiro do que do que daqui. Mais beijo que abraço.
Bem mais lança do que perfume. Mais cheiro do que fungada.
Mais ar que oxigênio. Mais rodoviária do que aeroporto.
Apesar de mais pneu do que nuvem.
Sou eu.
Bem mais isto do que isto.

Marcos Carneiro, arrajando mais alegorias na tentativa de descrição.

Um comentário:

  1. Belo exercício de introspecção! É preciso cavar fundo pra encontrar ouro.

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